terça-feira, 5 de abril de 2011

PARA AS CRIATURAS DO COLÉGIO PEDRO ADAMI - turma E-2101

Texto 1
CRÔNICA RAPIDINHA
               Isac Machado de Moura

Aos 15 anos descobri-me cronista. Essa experiência quase sobrenatural ocorreu numa aula de português, da professora Maria José, no Colégio Estadual Professor Alfredo Balthazar da Silveira, em Piabetá – Magé – RJ. Após discorrer brevemente sobre a crônica, pediu que cada aluno escrevesse uma. Escrevi sobre a televisão e confesso que gostei muito do produto final. A professora deu uma lidinha e pediu que eu lesse em voz alta para a turma, foi quase a consagração de um menino de 15 anos que ali, naquele momento, descobria-se cronista.
Desde o primário, já vivera várias experiências gostosas de escrita, mas não como aquela. Naquele momento, parece que eu tinha recebido algo especial. Foi a partir daquela aula que me senti cronista. A professora disse que eu era  e aí não parei mais de cronicar.
Quando meu primeiro livro de crônicas (Crônicas Não-Descartáveis, produção independente pela editora Forense) foi publicado em 1990, foi uma emoção. Ao ver uma prova do livro senti-me como um pai vendo o nascimento do seu primeiro bebê. Depois, só voltei a experimentar essa sensação quando a Paula ficou buchuda, mas aí, diferente do meu livro de crônicas que permanece vivo, nossa menina nasceu morta. É possível alguém nascer morto? Ou seria correto dizer que ela não nasceu? Assim como meu livro, Nathália eternizou-se. Filhos e livros são eternos. Pois bem, ao publicar meu primeiro livro,  não tinha muita clareza das diferenças entre crônica e conto e, se o leitor me permite confessar uma fraqueza, às vezes, ainda hoje, tenho dúvidas se estou fazendo um conto ou uma crônica. Estou melhorando, os conceitos estão quase claros em minha cabeça. Já sei, por exemplo, com segurança, que esse texto que você está lendo agora é uma crônica e não um conto. Outra coisa: quando escrevo, não fico preocupado se estou fazendo um ou outro, os técnicos em literatura que se virem, que definam de que se trata, eu só quero escrever e não estou muito interessado no rótulo que meu texto vai receber, só quero que o leitor curta o que eu escrevi. A propósito, você está curtindo ou está prestes a desistir da leitura? Tá bom, já vou encerrar meu texto. A propósito, você sabe quais são as diferenças entre um romance e uma novela?
Pois é, a culpa de você está lendo esse texto agora é da Maria José, ela que acreditou-me cronista e da Márcia Câmara, outra professora do mesmo colégio, até hoje, grande incentivadora de minha produção.


Texto 2 



Cego e amigo Gedeão à beira da estrada
                                    Moacyr Scliar
— Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?

— Não, Cego. Foi um Simca Tufão.

— Um Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.

Este que passou agora não foi um Ford?

— Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.

— Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.

É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?

— Não, Cego. Foi uma lambreta.

— Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.

Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!

Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?

— Não, Cego. Foi o ônibus.

— Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.

Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?

— Não. Foi um Volkswagen 1964.

— Ah, um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?

— Não, Cego, não foi um Candango.

— Eu estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam por onde começar.

Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!

— Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.

— Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?

— Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.

— Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei:

"Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?"

— "Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele. "Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada.

Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?

— Não, Cego. Foi um Volkswagen.

— Sim. O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora, delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei — além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?

— Não, Cego. Foi um Chevrolet.

— O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?

— Não, Cego. Foi um Ford 1956.


O texto acima foi publicado no livro "Para Gostar de Ler — Volume 9 — Contos", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 26.

www.releituras.com.br
Tudo sobre Moacyr Scliar e sua obra em "Biografias".

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